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Da pandemia a Buenos Aires: o salto exportador da Dos Orientales
Após participar de uma rodada de negócios da Uruguay XXI, a empresa uruguaia concretizou seu primeiro acordo internacional e chegou a mais de 50 supermercados na Argentina.
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Em 2020, quando o mundo parava e o setor gastronômico buscava se reinventar contra o tempo, uma ideia começou a ganhar forma entre testes, intuição e necessidade. Hoje, cinco anos depois, essa mesma iniciativa atravessou fronteiras, e as pizzas congeladas da Dos
Orientales já estão presentes em mais de 50 supermercados Jumbo e Disco em Buenos Aires, marcando o início de sua expansão internacional.
O caminho não foi linear, mas foi sustentado por uma clara convicção de apostar em um produto diferenciado. “A Dos Orientales surgiu em plena pandemia… dissemos: ‘vamos fazer uma boa pizza que não existe por aqui’”, lembrou Mauricio Sánchez, cofundador da empresa junto com seus irmãos Florencia, Francisco e Guillermo. O que começou como uma resposta ao fechamento dos restaurantes — combinando delivery de cerveja e pizza a partir de sua cervejaria Mala Fama — evoluiu rapidamente para um modelo com identidade própria.
A busca por qualidade, somada a uma estratégia de preços competitivos, tornou-se um dos pilares do crescimento. “Conseguimos um produto de altíssima qualidade a um bom preço, e isso foi fundamental”, afirmou Sánchez.
Esse crescimento se reflete no seu posicionamento atual: a Dos Orientales conta com mais de 200 pontos de venda no Uruguai, e o canal supermercadista representa hoje 85% das vendas de pizzas, consolidando uma estratégia centrada no varejo.
Consolidada no mercado local, com presença nas principais redes de supermercados, a empresa começou a olhar além das fronteiras. A oportunidade concreta surgiu em 2025, durante uma rodada de negócios organizada pela Uruguay XXI e pela Câmara de Indústrias do Uruguai, que reuniu mais de 70 empresas uruguaias com compradores da América Latina e dos Estados Unidos.
Esse espaço funcionou como uma ponte direta entre a empresa e compradores estratégicos da região. Foi ali que se iniciou o vínculo com a Cencosud, o gigante do varejo por trás do Jumbo e do Disco. Em poucos meses, o acordo se concretizou. “Acho que a reunião foi em agosto, e em seis meses já tínhamos as pizzas nas prateleiras”, explicou.
O processo envolveu ajustes e aprendizados, desde exigências regulatórias até adaptações logísticas. “Você se depara com coisas novas, como habilitações; tivemos que adaptar embalagens e processos. Mas exportar não é tão complicado”, afirmou. Longe de ser um obstáculo, a experiência ajudou a estruturar melhor a empresa. “São pedidos grandes, planejados, que te obrigam a se organizar melhor”, avaliou.
O primeiro envio para a Argentina alcançou cerca de 6.000 unidades e marcou um ponto de inflexão na escala do negócio. Com esse volume, a empresa projeta um crescimento próximo de 15% nas vendas, impulsionado pela entrada no mercado argentino.

Para a Dos Orientales, o salto exportador não apenas abriu um novo mercado, mas também redefiniu sua capacidade produtiva. Atualmente, sua planta em Montevidéu produz cerca de 45.000 pizzas por mês — o equivalente a 1.100 por dia — e opera no limite, em dois turnos, para atender tanto a demanda local quanto internacional.
“Aqui já tínhamos chegado perto do limite nas grandes superfícies. Sair para o exterior é fundamental para sustentar o crescimento”, afirmou Sánchez. E acrescentou: “Se você acredita no seu produto e consegue um preço competitivo, ele se destaca sozinho”.
A expansão também exigiu decisões operacionais. O aumento da demanda levou à redução da atividade do restaurante — que hoje funciona de quinta a domingo — para priorizar a produção e manter os 35 postos de trabalho vinculados ao negócio.
Paralelamente, a empresa avalia novos investimentos para automatizar processos e ampliar sua capacidade. Os sócios planejam incorporar maquinário automático da Itália, com o objetivo de dobrar o volume de produção e acompanhar o crescimento.
A entrada na Argentina, um mercado próximo, porém exigente, também funcionou como validação. Segundo a empresa, a resposta inicial foi positiva e novos pedidos já estão sendo projetados. Agora, começam a surgir oportunidades em outros mercados. “Estamos olhando para Brasil e Chile como próximos passos. Isso tende a crescer em cadeia”, adiantou. Com esse impulso, estimam encerrar o ano com crescimento de pelo menos 30% no faturamento e dobrar ou até triplicar a produção até 2027.
Além do caso específico, a experiência evidenciou o valor das rodadas de negócios como ferramenta de internacionalização. “Não há forma mais direta de chegar aos compradores do que através da Uruguay XXI. São reuniões presenciais, onde os compradores provam o produto — momentos-chave. Não sei se estaríamos exportando hoje se não tivéssemos participado”, afirmou Sánchez.
Para a Dos Orientales, essa ponte já está em movimento. E a imagem que resume o processo é tão simbólica quanto concreta. “Nos enche de orgulho ver a bandeira do Uruguai nas prateleiras da Argentina com um produto 100% uruguaio”, concluiu.
O caminho, que começou em um contexto adverso, hoje confirma o potencial das empresas uruguaias para competir em mercados internacionais quando contam com produto, estratégia e acompanhamento.