Editores do México, Espanha e Brasil visitaram Montevidéu e abriram uma agenda de negócios para o livro uruguaio

A Uruguay XXI convidou os editores Santiago Tobón e Sandro Aloisio para rodadas de negócios, um passeio literário e um debate na Feira do Livro
Data de publicação: 22/01/2026
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A cena se repetiu durante dois dias na Fundação Mario Benedetti: pastas, maquetes e portfólios sobre a mesa; editores que ouvem, perguntam e tomam notas; editoras, autores e ilustradores que contam seus projetos com a mistura precisa de nervosismo e convicção. A rodada de negócios convocada pela Uruguai XXI reuniu editoras uruguaias, criadores e dois convidados de peso: Santiago Tobón, um dos diretores da Sexto Piso (México e Espanha), e Sandro Aloisio, diretor editorial do Grupo Escala (Brasil).

Além dessas reuniões, os visitantes participaram de um passeio patrimonial pelos marcos literários de Montevidéu e de um debate na 47ª Feira Internacional do Livro. A experiência deixou contatos concretos, aprendizados compartilhados e uma mensagem clara: internacionalizar o catálogo uruguaio é possível e necessário.

“Pela primeira vez, fazemos essa missão inversa: trazer a Montevidéu atores internacionais importantes, para que conheçam a indústria editorial e também a idiossincrasia do nosso país”, explicou Omaira Rodríguez, especialista em Promoção de Indústrias Criativas na Uruguay XXI, ao abrir o debate no Salão Dourado da Prefeitura.

O brasileiro Sandro Aloisio tomou a palavra com simplicidade e uma declaração de princípios. “Fiquei impressionado com a diversidade e o poder da ilustração uruguaia. Quero acreditar que vou fechar algumas parcerias para lançá-los no Brasil: tanto com projetos que me forem oferecidos daqui quanto com textos de autores brasileiros ilustrados por artistas uruguaios”, disse. Ele também fez uma autocrítica regional: “Temos uma dívida cultural entre nossos países. Olhamos demais para a Europa e os Estados Unidos. É preciso estreitar os laços na América do Sul”.

Santiago Tobón traçou o roteiro da Sexto Piso — seis coleções, cerca de 600 títulos e um projeto “literário no sentido amplo” que publica em espanhol para todo o espaço hispânico — e destacou a qualidade local. “A efervescência editorial no Uruguai não é comum. Na ilustração, vi profundidade e estilos singulares. Levei muitas tarefas de leitura: há valor literário para dialogar com nossos leitores”, comemorou.

Catálogos que viajam

Do lado das editoras locais, Julia Ortiz (Criatura Editora) valorizou a preparação dos convidados. “Eles chegaram superinformados sobre nosso catálogo, com interesses concretos. Isso pode resultar em um intercâmbio produtivo”, expressou. Ela também destacou a limitação de tempo e recursos que as editoras de médio e pequeno porte enfrentam. “Nem sempre podemos viajar ou ter alguém dedicado à venda de direitos. É fundamental que os possíveis parceiros venham a Montevidéu”, disse.

Da Fin de Siglo, Estefanía Canalda concordou com a avaliação. “A Sexto Piso é talvez o catálogo mais importante da língua espanhola. O diálogo foi genuíno, sobre literatura. Para o Uruguai, com um mercado pequeno, a internacionalização deve ser um objetivo central da política cultural”, afirmou.

Olhares da ilustração

A ilustradora Ana Bidault, que trabalha com uma agência internacional, destacou o valor do encontro presencial. “Não tenho a oportunidade de falar diretamente com editoras ou agentes. Viajar para feiras é difícil. Que eles venham e possamos sentar para conversar é inestimável”, apreciou. Sua reunião com Sandro Aloisio a deixou “animada”: “Ele se interessou pela narrativa da minha graphic novel e por um estilo que talvez não esteja presente em seu catálogo”.

De Maldonado, a ilustradora Natalia Risso chegou nervosa e com um projeto próprio debaixo do braço. “Foi meu primeiro encontro formal com um representante editorial e estou indo embora com uma sensação positiva. Dê certo ou não, já é uma vitória: se apresentar, tentar, superar medos”, avaliou. Para ela, o apoio público é fundamental: “É uma ponte superimportante; sem isso, muitos de nós ficamos isolados”.

O ilustrador Dani Scharf destacou a pertinência dos perfis escolhidos. “Estudei seus catálogos e levei peças que poderiam se encaixar, mas também outras diferentes para abrir possibilidades. Os feedbacks foram muito bons; espero que os projetos se concretizem”, expressou. Sua conclusão: “Essas instâncias são bem-vindas e necessárias. Às vezes, temos que sair em busca delas; agora que elas vêm até nós, isso muda o jogo”.

Para Sebastián Santana, acostumado a feiras internacionais, o valor estava na revisão profissional: “É desafiador ver como alguém que vê milhares de livros lê sua obra. Mesmo que a resposta seja crítica, isso faz você crescer. No meu caso, ele gostou muito e me convidou para manter contato”.

A ilustradora e jornalista Paz Sartori focou na adaptação internacional. “Mostramos coleções pensadas aqui e conversamos sobre como levá-las a outros mercados. Não é a mesma coisa um e-mail ou um Zoom que ver o produto em mãos e discutir pontos de encontro. Fiquei com a ideia de ilustrar em chave de internacionalização desde o início”, apreciou.

Federico Taibo saiu com uma surpresa: “Sandro quer apresentar um dos meus projetos a um colega no Brasil. Era algo que eu tinha quase esquecido e trouxe para mostrar outro estilo. Ele se interessou pelo desenho, pela cor e pela versatilidade, além de ser um autor integral”.

“Gigante” e a voz das infâncias

A equipe do Gigante — o jornal para crianças e adolescentes do la diaria —, representada por seu diretor editorial Martín Otheguy e pela gerente de alianças estratégicas Lucía Pardo, mostrou sua publicação mensal, temática e com participação ativa dos leitores. “Temos um grupo consultivo de meninas e meninos que decidem os conteúdos. Sandro chegou sabendo do que estávamos falando e quais seções lhe interessavam. Saímos muito felizes”, disse Otheguy.

Para o projeto, a chegada de pares internacionais é uma forma real de se conectar: “Às vezes, a gente sente que está pregando no deserto; ouvir elogios e perguntas de alguém de outro país dá esperança”.

Novas vozes, novos olhares

A escritora Margarita García Telesca apresentou Relatos diversos, contos inspirados em experiências de pessoas LGBTQ+ do interior do país. “A recepção foi muito sensível. Somos um mercado pequeno e nos comunicarmos com o exterior é vital”, disse ela, ao mesmo tempo em que lembrou outra oportunidade proporcionada pela Uruguay XXI, com a qual viajou a Madri para o Rodando Páginas com seu livro Un virus de amor. “Daí surgiu o processo para um filme com uma produtora hispano-argentina. O primeiro passo é o mais importante”, avaliou.

O apoio que fortalece a indústria

Entre os diferentes depoimentos, houve coincidência em destacar a importância de impulsionar e sustentar essas instâncias. Para as editoras, é um apoio fundamental diante das limitações de escala e recursos. “É a única forma para editoras locais devido ao tamanho e à capacidade de negócios”, apontou Julia Ortiz.

Com base na experiência internacional, Sebastián Santana enfatizou o sentido estratégico: “Ecossistemas editoriais fortes requerem a participação do Estado. Não apenas por uma questão econômica, mas também pelo valor simbólico e pela projeção cultural do país”.

Em termos territoriais, Natalia Risso descreveu isso como “uma ponte superimportante; sem ela, muitos de nós ficamos isolados”.

Para a equipe da Gigante, a leitura é semelhante: “É difícil que isso aconteça a partir do setor privado. A existência de uma agência que impulsiona isso mostra que se trata de um interesse público”.

Os ilustradores também enfatizaram isso. Ana Bidault disse que essas oportunidades “dão visibilidade a um trabalho que muitas vezes parece invisível no Uruguai”, enquanto Dani Scharf e Federico Taibo destacaram que trazer atores internacionais para Montevidéu é o que torna possível conectar projetos que, de outra forma, ficariam de fora devido aos custos de viagem ou à falta de acesso a redes.

Em conjunto, a missão mostrou que essa linha de trabalho impulsionada pela Uruguay XXI é percebida como um facilitador indispensável para que a indústria editorial uruguaia possa se projetar além das fronteiras e abrir espaços de crescimento para autores, ilustradores e editoras.

Patrimônio como política de futuro

A missão não se limitou às rodadas de negócios. As visitas guiadas à Torre dos Panoramas de Julio Herrera y Reissig, à Casa de Susana Soca ou ao Museu Zorrilla funcionaram como contexto simbólico. “Foi uma imersão fundamental”, disse Aloisio. “Fiquei emocionado com a forma como eles cuidam da memória. Isso também se exporta”.

Para Tobón, o roteiro foi categórico: “Levo comigo tarefas: ler, mapear e colocar em circulação vozes uruguaias no mundo hispânico”.

Ao encerrar o debate na Feira, Omaira Rodríguez anunciou a continuidade: a editora Carolina Orloff (Charco Press) visitará Montevidéu de 10 a 14 de novembro para continuar a rodada de reuniões.

A missão inversa da Uruguay XXI mostrou um quadro completo: talento competitivo, catálogos diversificados, ilustração poderosa e um ecossistema que ganha força quando abre portas.

Os editores convidados partem com projetos na carteira e uma mensagem para seus pares: olhar mais para o sul, mais perto.


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