“Uruguai é um daqueles lugares da América Latina aos quais as pessoas deveriam prestar mais atenção”

O professor do MIT Michael A. Cusumano visitou o Uruguai para participar do UM Connects, encontro que reuniu mais de 530 líderes da ciência, da indústria, do capital e da academia
Data de publicação: 26/03/2026
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Após décadas estudando ecossistemas de inovação em diferentes partes do mundo, o professor do MIT Sloan School of Management, Michael A. Cusumano, tem observado como cidades e países conseguem transformar pesquisa, talento e empreendedorismo em empresas globais. Durante sua recente visita ao Uruguai, no âmbito do UM Connects, ele identificou uma série de características que, em sua visão, posicionam o país como um ambiente atraente para inovação e investimentos.

Eu descreveria o Uruguai como um pequeno país avançado na América Latina, na América do Sul em particular, onde o padrão de vida é alto, as pessoas parecem bem educadas, as universidades parecem boas e o governo parece muito estável e interessado em construir um futuro melhor para todos”, afirmou.

Cusumano, que trabalhou com cerca de 100 regiões e cidades ao redor do mundo por meio do programa MIT Regional Entrepreneurship Acceleration Program (REAP), destacou que universidades fortes são um dos pilares centrais dos ecossistemas de inovação bem-sucedidos.

É muito difícil ter um verdadeiro ecossistema de inovação sem universidades no centro”, explicou, ressaltando que essas instituições desempenham um papel fundamental não apenas na pesquisa básica, mas também na pesquisa aplicada que pode gerar novos produtos, empresas e indústrias.

Outro fator-chave, segundo ele, é o apoio do setor público à inovação e ao desenvolvimento econômico.

Um governo que apoie a inovação e o desenvolvimento econômico, a pesquisa e a educação é muito importante”, afirmou, destacando que investidores costumam avaliar marcos regulatórios, incentivos à pesquisa e desenvolvimento e o ambiente jurídico antes de ingressar em novos mercados.

Durante sua passagem por Montevidéu e Punta del Este, Cusumano ressaltou especialmente a reputação internacional do Uruguai e sua estabilidade institucional.

O que mais me impressiona é a reputação do país como uma democracia muito estável, o que considero muito importante”, disse. “É necessário ter um governo previsível e confiável, especialmente quando se trata de diferentes tecnologias”, acrescentou.

Do ponto de vista de investidores e empresas de tecnologia, a previsibilidade costuma ser um fator decisivo.

A estabilidade é muito importante e está no centro de várias outras variáveis”, afirmou, embora tenha destacado que ela deve vir acompanhada de crescimento econômico e ganhos de produtividade, frequentemente impulsionados pelo uso eficaz de novas tecnologias.

Nesse sentido, Cusumano destacou a tradição do Uruguai em educação e alfabetização digital como uma base relevante para o desenvolvimento de novas oportunidades.

O Uruguai tem uma longa história de alfabetização e tecnologia da informação e deveria se tornar um líder na América do Sul em entender como usar a inteligência artificial”, afirmou, sugerindo que o país pode desenvolver novas aplicações e startups a partir de plataformas tecnológicas globais.

Outro ponto que ele considera uma vantagem é a posição geográfica estratégica do país.

Mesmo que o Uruguai seja pequeno, sua posição é muito estratégica”, disse, observando que o país está localizado entre dois grandes mercados regionais, Brasil e Argentina. Nesse sentido, comparou o caso uruguaio ao da Irlanda, que soube aproveitar sua localização e capital humano para se posicionar como um hub tecnológico.

Durante o UM Connects, organizado pela Universidade de Montevidéu, Cusumano também destacou a capacidade do país de reunir diferentes atores do ecossistema.

Pareceu-me que muitas das pessoas mais importantes do país estavam naquela mesma sala”, comentou, referindo-se ao encontro entre empreendedores, acadêmicos, investidores e autoridades públicas. “Muitos países não conseguem fazer isso”, acrescentou, explicando que economias maiores costumam ter mais dificuldades para coordenar esses atores.

Para países de menor escala, essa capacidade pode se transformar em uma vantagem competitiva.

Existe um conceito que chamamos de ‘estratégia de judô’, em que se transformam desvantagens em vantagens”, afirmou. Em economias menores, explicou, é mais fácil mobilizar pessoas e construir consensos em torno de iniciativas estratégicas.

Olhando para o futuro, Cusumano acredita que países como o Uruguai devem focar no desenvolvimento de competências em áreas específicas.

Não é possível fazer tudo”, afirmou. “Mas é possível escolher uma ou duas áreas estratégicas para investimento, aproveitando as forças existentes e pensando no longo prazo, em dez ou vinte anos”.

Apesar dos desafios enfrentados por economias de menor escala em um cenário global dinâmico, o acadêmico considera que o Uruguai tem um potencial significativo.

É um daqueles lugares, talvez não tão conhecidos na América Latina, aos quais acho que as pessoas deveriam prestar mais atenção”, concluiu.


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