O Uruguai joga a sério: o país se consolida como exportador global de videogames

Com mais de 50 estúdios em atividade, exportações no valor de US$ 10 milhões e um mercado interno que chega a US$ 50 milhões, a indústria uruguaia de videogames ganha escala e projeção internacional, de acordo com o novo estudo de viabilidade setorial elaborado pela Uruguay XXI.
Data de publicação: 24/04/2026
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Em um mercado global cada vez mais competitivo e em expansão, que ultrapassou US$ 187,7 bilhões em 2024, onde milhões de jogadores consomem conteúdos em diversas plataformas, o Uruguai conseguiu se destacar com uma combinação pouco comum: pequena escala, mas impacto global. Longe dos grandes centros tradicionais, estúdios locais conseguiram posicionar seus próprios títulos em rankings internacionais, acumular milhões de downloads e estabelecer vínculos estáveis com editoras, plataformas e clientes no exterior.

No Uruguai, há hoje mais de cinquenta estúdios de videogames ativos e um catálogo em expansão que ultrapassa os 80 títulos próprios. Por trás desse número, consolida-se uma indústria voltada quase exclusivamente para a exportação, com receitas que giraram em torno de US$ 10 milhões em 2023.

De acordo com o novo Business Case de Videogames elaborado pela Uruguay XXI, esse desempenho não é casual, pois a indústria uruguaia de videogames se desenvolveu paralelamente ao crescimento do setor tecnológico e hoje se apoia em uma base sólida de exportação de serviços digitais. A maioria dos desenvolvimentos locais é voltada para mercados internacionais e, em muitos casos, se beneficia de um regime fiscal que isenta do imposto de renda os produtos de software exportados, um diferencial fundamental em termos de competitividade.

O ecossistema, além disso, mostra sinais de maturidade. A produção concentra-se principalmente em PC, seguida por dispositivos móveis e consoles, com forte presença de gêneros como ação e estratégia, o que reflete uma indústria que já não é experimental, mas diversificada e voltada para nichos específicos de mercado.

Mas se há um argumento que o setor apresenta com veemência é sua capacidade de gerar propriedade intelectual reconhecida globalmente. O caso mais emblemático é o da Ironhide Game Studio, criadora da saga Kingdom Rush, que ultrapassou 44 milhões de downloads e conquistou vários prêmios internacionais. A essa trajetória somam-se estúdios como a Pomelo Games — com títulos de destaque na Apple Arcade — e a Batovi, que conseguiu se posicionar em plataformas globais com propostas de identidade local.

Também surgem modelos inovadores como o da Entrevero Games, um estúdio que trabalha para clientes internacionais como Cartoon Network e Mattel e cujos jogos ultrapassam cinco milhões de partidas mensais em plataformas globais. Sua estrutura cooperativa, na qual todos os integrantes são sócios, introduz uma lógica de produção pouco comum na indústria e reforça o caráter colaborativo do ecossistema local.

Além dos casos de sucesso, o atrativo do setor reside em um conjunto de condições estruturais. O Uruguai combina talento criativo e técnico com uma alta proporção de profissionais com domínio do inglês, o que facilita a inserção internacional. A isso soma-se uma infraestrutura digital de primeira linha na região, com altos níveis de conectividade, centros de dados e links internacionais que permitem trabalhar em tempo real com equipes globais.

A sustentabilidade também surge como um diferencial emergente. Com 98% de sua matriz energética baseada em fontes renováveis, o país oferece condições para um desenvolvimento de software com menor pegada de carbono, um aspecto cada vez mais valorizado na indústria tecnológica global.

Paralelamente, o setor apresenta uma institucionalidade em expansão. A criação da Câmara Uruguaia de Desenvolvedores de Videogames (CAVI) em 2016 permitiu articular interesses, promover a internacionalização e consolidar uma agenda comum entre empresas, academia e órgãos públicos. A isso somam-se fundos específicos para o desenvolvimento de protótipos e etapas criativas, bem como eventos e espaços de formação que alimentam o fluxo de novos projetos.

O mercado interno, embora limitado, também apresenta sinais relevantes. Cerca de 28% dos usuários de internet no Uruguai jogam videogames online e cerca de um terço realiza gastos dentro dos jogos, gerando um mercado estimado em US$ 50 milhões anuais. Mais do que o tamanho, o que se destaca é o comportamento: um consumo sofisticado, diversificado e com capacidade de monetização.

Nesse contexto, a estratégia nacional visa consolidar o videogame como uma plataforma de exportação baseada em conhecimento, criatividade e serviços. A participação em feiras internacionais, o desenvolvimento de uma plataforma setorial como a Uruguay Video Games e a articulação público-privada reforçam uma aposta que já não se coloca em termos de potencial, mas de posicionamento.

O desafio, daqui para frente, não parece estar em demonstrar que o Uruguai pode produzir videogames competitivos, mas em ampliar essa capacidade, sustentar o crescimento e consolidar uma marca-país associada à qualidade, inovação e confiabilidade em um dos setores mais dinâmicos da economia digital.


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