Uma rodada para abrir fronteiras: o networking do Cosquín Rock conectou a música uruguaia com programadores da região

Na véspera do Cosquín Rock Uruguay, um encontro organizado pela Uruguay XXI reuniu programadores do Brasil e da Argentina com empresários de bandas e artistas uruguaios, em uma iniciativa voltada para a projeção internacional da música nacional
Data de publicação: 27/03/2026
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Antes mesmo de os palcos do Cosquín Rock Uruguay começarem a ressoar, a música já havia começado a construir pontes. No emblemático restaurante Lo de Silverio, em um ambiente descontraído, mas com objetivos bem concretos, a Uruguay XXI reuniu programadores de festivais, casas de shows e plataformas de divulgação do Brasil e da Argentina com empresários de artistas e bandas uruguaias, em um evento de networking pensado para transformar contatos em oportunidades.

A atividade voltou a colocar em cena uma estratégia que a agência vem desenvolvendo junto aos organizadores do festival para aproveitar a concentração de talentos uruguaios na programação do Cosquín Rock e aproximar aqueles que definem as programações na região. Se a música ao vivo continua sendo decisiva na hora de escolher artistas, o festival oferece um contexto privilegiado para mostrar as bandas uruguaias diante de seu público, concordaram os organizadores do evento.

Como parte dessa preparação, os programadores recebem previamente um catálogo digital dos artistas uruguaios que participam do festival, uma ferramenta fundamental para antecipar o trabalho que depois é aprofundado no encontro. O material inclui informações detalhadas sobre cada projeto, o que permite uma primeira curadoria antes de chegar ao Uruguai e otimiza as trocas durante o evento presencial.

Acesse o catálogo aqui.

“Esta missão, na qual trazemos convidados internacionais, é a mais valiosa para o setor musical, pois para os programadores é muito difícil ver as bandas tocando ao vivo diante de seu público”, explicou Omaira Rodríguez, especialista em indústrias criativas da Uruguay XXI, ao abrir o evento.

Rodríguez lembrou que esse formato já tem uma trajetória. Após uma primeira tentativa piloto em 2019, a iniciativa se consolidou nos últimos anos como uma ferramenta para a internacionalização do setor musical. A escolha do Lo de Silverio também teve um significado simbólico e prático: um espaço acolhedor para a cena local que funcionou como o ambiente ideal para um intercâmbio mais humano do que formal. “A ideia é que seja um encontro descontraído, onde os empresários e empresárias das bandas, representantes das bandas e artistas do Uruguai possam conversar com os programadores e programadoras”, resumiu Rodríguez.

Da produtora Piano Piano, coorganizadora do evento, Camilo Sequeira destacou o valor estratégico dessa instância dentro do festival. “Consideramos este momento fundamental. Ano após ano, é mais um grão de areia que podemos contribuir com nosso trabalho para que surjam novas oportunidades para os artistas uruguaios”, afirmou.

Para Sequeira, o diferencial está na experiência direta. “A possibilidade de os amigos programadores poderem ver todos os projetos ao vivo não tem comparação”, disse. E acrescentou que o trabalho não termina na rodada de encontros: “É preciso ter paciência, é preciso fazer o acompanhamento, mas, acima de tudo, criar laços. Esta é uma profissão de laços humanos”, expressou.

Esse espírito permeou as apresentações dos convidados internacionais, que expuseram não apenas a escala e o perfil de seus espaços, mas também sua disposição para construir relações de longo prazo com a cena uruguaia.

Do Brasil, Camila Casseano apresentou a dimensão do SESC São Paulo, uma das instituições culturais mais importantes do país vizinho. “O SESC é uma instituição muito grande no Brasil”, explicou, antes de detalhar que somente no estado de São Paulo contam com 43 unidades operacionais e que, em 2025, realizaram “mais de 5.000 ações musicais para mais de um milhão de pessoas”.

Sua participação insere-se no vínculo que a Uruguay XXI vem desenvolvendo com os centros SESC, que já haviam enviado representantes à edição de 2024 do festival. Nesta ocasião, além disso, sua visita permitiu ampliar os contatos institucionais, já que, no âmbito de sua agenda no Uruguai, Casseano manteve uma reunião com o Instituto Nacional de Artes Cênicas para explorar futuras linhas de intercâmbio e cooperação.

Em seu discurso, Casseano destacou a continuidade do trabalho com o Uruguai. “Este ano, vamos receber o concerto de Florencia Núñez”. Esse intercâmbio se insere em uma linha de ação da Uruguay XXI que promove a projeção internacional da artista vencedora do Prêmio Graffiti de melhor solista feminina, que, nesta ocasião, se concretizará na programação do SESC.

Felipe Franca González, da Difusa Fronteira, relembrou experiências de intercâmbio com artistas uruguaios e brasileiros e destacou o quanto mudou, na última década, a circulação da música latino-americana no Brasil. “Esses encontros nos permitem vivenciar esse intercâmbio cultural”, disse ele.

Da Argentina, Noel Yolis, diretora artística da Ciudad Cultural Konex, apresentou outro tipo de plataforma fundamental para os artistas da região: uma casa de shows com identidade forte, programação própria e capacidade para 3.000 pessoas em plena Buenos Aires. “Há muitos anos, somos o lar de artistas uruguaios”, afirmou. Agarrate Catalina, o Cuarteto de Nos, Cuatro Pesos de Propina e La Vela Puerca foram alguns dos nomes que ela mencionou ao relembrar esse vínculo. “A ideia é continuar fazendo isso, por isso também agradecemos este espaço para que possam surgir novas oportunidades”, destacou.

Flor Donini, da Boomerang, trouxe a perspectiva de uma agência jovem, mas já inserida em uma rede internacional de festivais, representação artística e agenciamento, e valorizou especialmente o espaço criado em Montevidéu. “São boas oportunidades para tecer redes e aprofundar os objetivos que cada um de nós tem aqui”, expressou.

Outros convidados argentinos compartilharam a mesma linha de pensamento. Eduardo Sempé, da Rock y Reggae Producciones, que também trabalha com casas de shows em Buenos Aires e Madri, ressaltou a importância de manter esses laços ao longo do tempo e destacou sua decisão de viajar especialmente para participar do encontro. Guillermo Montironi, da Asfalto Producciones, seguiu a mesma linha ao sublinhar que esses processos exigem perseverança. “Muitas vezes as coisas não acontecem da noite para o dia, mas é preciso começar a trabalhar, é preciso começar a estabelecer vínculos, é preciso começar a entender as necessidades”, afirmou.

Seu depoimento teve ainda um valor especial porque trouxe à tona antecedentes concretos decorrentes dessas rodadas. Montironi lembrou que, a partir de encontros de anos anteriores, conseguiu concretizar três shows de Rubén Rada na Argentina.

Como parte da programação de atividades, os programadores também participaram de uma visita guiada ao Teatro Solís, organizada em parceria com a Direção de Cultura da Prefeitura de Montevidéu, uma oportunidade que lhes permitiu conhecer mais de perto outro dos espaços emblemáticos da cena cultural do país.

Assim, na véspera do festival, o encontro voltou a confirmar que a internacionalização da música uruguaia também se dá nesses espaços, que criam laços que podem se transformar em novas oportunidades para os artistas nacionais.


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