"Eu quero mostrar ao mundo que o Uruguai tem uma culinária que nos caracteriza”

Com a inauguração do “hugo”, seu novo restaurante em Montevidéu, Hugo Soca volta às origens de sua cozinha. O embaixador da Marca País afirma que a gastronomia uruguaia tem um enorme potencial para se projetar no mundo
Data de publicação: 17/04/2026
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Para Hugo Soca, o novo restaurante que leva seu nome não é apenas uma inauguração gastronômica nem um novo passo empresarial. É, acima de tudo, uma síntese. Um espaço onde convergem sua trajetória, sua maneira de cozinhar, sua estética e também sua forma de falar sobre o Uruguai.

Este projeto é o resumo de tudo em que venho trabalhando, tudo o que venho mostrando ao longo desses anos por meio da culinária e da comunicação”, diz ele. E logo completa a ideia: hugo não é apenas um restaurante, mas uma casa aberta a todos para valorizar a identidade uruguaia com os produtos, os produtores, a culinária e a essência da família.

Soca é, além disso, embaixador da Marca País, função na qual promove a identidade e os valores do Uruguai por meio da gastronomia. Nessa perspectiva, seu trabalho não apenas valoriza a culinária local, mas também a produção nacional, o vínculo com o território e a cultura que se expressa em cada prato.

Seu restaurante hugo remete a uma história que começa muito antes da cozinha profissional. Começa no campo, como ele mesmo narra, com uma criança que engatinhava entre a terra, a grama, a madeira, a pedra e o mato. Em um lar sem luz elétrica nem água potável, onde o forno a lenha e a água do poço faziam parte do cotidiano. Em uma infância marcada pelo trabalho rural, pelo contato direto com os animais, pela horta, pelos queijos caseiros e pela cozinha feita do zero.

Em seu relato, o restaurante está repleto desses sinais. A planta de louro na entrada, por exemplo, remete à primeira erva aromática que ele se lembra de ter plantado quando criança, mas também ao emblema da cozinha caseira, ao molho de domingo, àquela memória doméstica que ele busca recuperar. Os fornos a lenha evocam a cozinha de sua avó e de sua infância; a madeira, a pedra e os tons cinza do espaço dialogam com o interior do país, com a terra e com a paisagem rural. Até mesmo a casa em si — uma construção de 1920, com sua escada original preservada — foi concebida como parte da narrativa.

Para Soca, cada projeto deve contar uma história, e, neste caso, a história é a sua, mas também a de um Uruguai profundo, produtivo e afetivo.

A proposta culinária segue essa mesma linha. Longe de uma gastronomia concebida exclusivamente a partir da sofisticação ou das tendências, Soca insiste em uma cozinha da memória, próxima e emocional. A permanência de pratos aparentemente simples, como os buñuelos, o arroz com leite, as panquecas com doce de leite, os canelones ou a comida de panela, confirma, em sua opinião, que existe uma identidade culinária profundamente enraizada na experiência dos lares.

O mais vendido sempre foram os buñuelos. E, entre as sobremesas, o arroz com leite”, conta. Ele não diz isso como uma curiosidade comercial, mas como prova de algo mais profundo, porque esses pratos despertam lembranças, afetos e cenas familiares que permanecem vivos na memória coletiva. “O arroz com leite emociona, o arroz com leite faz vibrar”, afirma.

Essa culinária, para Soca, também é uma forma de pensar o país. Como embaixador da Marca País, ele entende que a gastronomia pode e deve ocupar um lugar mais visível na maneira como o Uruguai se apresenta ao mundo. E aí surge uma convicção central de seu discurso: que o Uruguai tem sido comunicado há muito tempo quase exclusivamente por meio da carne e que sua riqueza gastronômica é mais ampla e diversificada.

Obviamente, temos uma carne espetacular. Mas isso já se sabe”, afirma. Em sua opinião, o desafio está em mostrar também a culinária cotidiana, os laticínios, os vinhos, os queijos artesanais, os produtos da costa, a culinária de panela, os embutidos, os doces tradicionais e, acima de tudo, a trama humana que existe por trás de cada produto.

Nesse ponto, sua visão sobre a gastronomia torna-se inseparável de sua defesa do produtor rural e do pequeno empreendedor. No hugo, explica ele, não quis apenas dar espaço à culinária, mas também à produção nacional. “O hugo dá espaço ao produtor rural, ao produtor de laticínios, ao vinicultor, dá espaço àqueles que fazem produtos para que as pessoas possam desfrutar do nosso país”, diz ele sobre o restaurante.

Seu trabalho em Da terra ao prato, o programa de televisão que percorre o Uruguai há dez anos, consolidou essa perspectiva. Lá, ele ressalta, não só conheceu em primeira mão os produtos e as receitas do país, mas também as pessoas por trás deles: empreendedores, produtores, cozinheiros e famílias de cada departamento. Essa experiência reforçou sua convicção de que o Uruguai possui uma riqueza produtiva e gastronômica que muitas vezes o próprio uruguaio desconhece.

Muitas pessoas se surpreendem quando mostro um produtor ou um pequeno empreendedor e dizem: ‘Ah, tudo isso no Uruguai?’ Sim, no Uruguai temos isso e temos muito mais”, afirma.

Na sua visão, a culinária tem um poder singular para contar essa história. Porque não se trata apenas de ver ou provar, mas também de narrar. Ela se transmite em uma receita, em uma conversa, em uma imagem, em uma memória. Por isso, ele insiste que a gastronomia pode funcionar como uma ferramenta privilegiada para posicionar o Uruguai internacionalmente.

A culinária é emoção, a culinária é sensibilidade e a culinária se conta”, resume ele. Quando fala de uma receita que surgiu na sua infância — de bolinhos feitos com verduras da horta, ovos recém-colhidos, leite ordenhado naquela manhã e gordura de porco aquecida no fogão a lenha —, ele não está apenas descrevendo uma receita, está contando um país, uma cultura material, um vínculo com a terra e uma forma de habitar o território.

Por isso, quando pensa no que um visitante estrangeiro deveria descobrir ao entrar no hugo, a resposta não se esgota no sabor. Ele gostaria que descobrisse o valor da família, a identidade do país, a diversidade de sua produção e a proximidade com aqueles que a tornam possível. No Uruguai, ele ressalta, a poucos quilômetros de uma cidade já é possível encontrar produtores rurais, vinícolas, fazendas leiteiras e pequenas produções. Essa escala, essa proximidade e essa autenticidade também fazem parte da experiência do país.

Quero que o comensal perceba que o Uruguai tem uma identidade, que o Uruguai tem uma produção nacional”, diz ele.


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